A vida é amiga da arte. É a parte que o Sol me ensinou. O Sol que atravessa essa estrada que nunca passou. Disse o poeta. Mas que sol? Que estrada? Passou para onde? O astro que bilha nos céus nos irradia com sua luz. Com sua luz ele não só traz vitalidade. Desde os primeiros homens, o sol nasce e se põe.
Na memória fica a lembrança do último por do sol. No coração fica a esperança de uma nova alvorada. Sutileza e força convivendo imbricadas em um amálgama de significados. O sol nos deu luz para vermos, mas também para vermos aquilo que não vemos. Não podemos ver o tempo. A passagem do tempo é concreta. Sentimos em nossa pele e nos joelhos que rangem.
E os segundos, minutos, horas, dias, meses e anos, quem os inventou, senão o homem? Esse ser que insiste em medir o imensurável, em aprisionar o sol e a lua na abstração.
Imaginamos círculos no céu para justificar o pulsar das veias. Sim, porque o coração bate sessenta vezes num minuto. São sessenta os segundos que escorrem como areia entre os dedos das mãos. Escorrem pelo indicador, pelo médio, pelo anelar e pelo mínimo. Cada um desses quatro dedos com suas três falanges. Em uma mão são doze ao todo. São doze como as horas que dividem o dia em claridade e sombra. São duas mãos e, portanto, doze mais doze, vinte e quatro.
Tal qual as falanges das duas mãos juntas, como se a carne e o osso quisessem sussurrar ao homem que o tempo não é senão um eco do corpo, uma invenção nascida da observação dos astros e das próprias vísceras, das marés do sangue e das estações que se dobram sobre a terra. Abstração seria uma expressão do aprisionamento da natureza externa ao homem para dentro de sua natureza particular.
Há algo sutil aqui. Essa é uma analise do nosso provável entendimento do tempo, e nada explica o que é tempo em si. O que é o tempo? Os relógios e calendários são expressão da nossa frágil condição de criaturas que contam histórias enquanto o universo, indiferente, prossegue seu curso sem relógios nem calendários. O universo não precisa de um relógio. Na verdade não precisa de nós.
O universo, essa entidade que não lê tratados de filosofia nem se curva a mapas, subverte a própria ideia de centro, rasga os diagramas, transborda os limites, fazendo do protagonismo humano apenas um capítulo breve na epopeia caótica das coisas que nascem, morrem e se transformam sem pedir licença.
Natureza é uma expressão curiosa. Ao pensarmos nela, automaticamente imaginamos um limite claro entre o humano e o não humano. A dividimos. Separamos o universo entre a natureza humana e a natureza do resto.
Traçamos fronteiras entre a natureza — aquela dos documentários onde os leões rugem, as águas voam e aparecem cascatas cinematográficas — e a humanidade. Nos julgamos donos de nós mesmos, a humanidade como mestra de si. Incorremos no engano. Embora os arranha-céus dos centros urbanos, o solo negro do asfalto e os carros que zunem pelas ruas nos afaste dos perigos imediados da natureza (daquilo que dizemos como não humano), não quer dizer que nos apartamos dela.
A existência da humanidade carece de condições ideais. O conforto que conquistamos, através da transformação da natureza pelo trabalho, não desatou os nós invisíveis que nos ligam às raízes do mundo.
A vida pode ser eterna? Sim, talvez. Da mesma fonte que emana a abstração do tempo a partir da análise concreta da passagem do sol também surge a possibilidade. Surge a capacidade trazer a abstração para a concreticidade: esse é o por teleológico. Esse é o dom unicamente humano de trazer a abstração para o concreto. Inaugura-se algo mais do que um campo de conhecimento humano. Manifesta-se aqui a arte.
Pela arte — manifestação que os homens tecem como teias de aranha contra o vento do tempo — fazemos um sopro teimoso contra a muralha do esquecimento. Talvez, apenas talvez, nossa única ponte frágil para atravessar o abismo do efêmero sem jamais decifrá-lo. Essa é uma chance, repito, não uma promessa.
A arte não é mapa nem bússola, é um espelho quebrado onde se refletem instantes fugidios, paradoxo de querer imortalizar o que dura menos que um piscar de olhos. Ainda assim, ali, nas telas, nas palavras, nas notas suspensas no ar, reside o que há de mais humano: a tentativa desesperada de dizer aqui estive, isto senti, isto vi. Mesmo sabendo que o tempo, esse rio sem margens, seguirá correndo indiferente. Arrastando consigo até as pedras mais pesadas, até os monumentos mais altos, até as certezas mais sólidas. O universo não pestaneja em sacrificar suas maiores ou mais belas estrelas, que um dia encontrarão o seu fim. Enquanto o ser humano, essa criança teimosa, pela arte continua riscando traços na areia, sabendo que a maré virá, mas riscando mesmo assim. Quem ousa afirmar que não é nesse gesto, e não no mar, que reside o verdadeiro mistério do propósito da vida?
Daí temos uma pista. Tal resposta não virá da ciência. Não há cientista honesto que afirme haver uma resposta para o propósito da vida. A ciência nos fornece um método útil e construção objetiva do conhecimento. No entendimento do meio para a produção, reprodução e projeção do gênero humano. Na descoberta de respostas para problemas difíceis da nossa materialidade.
Essa eficácia singular e soberania inconteste da ciência não se devem, por mais engenhoso que seja o espírito humano se misturar à compreensão do que nos transcende. Não é isso que faz a ciência ou é o trabalho de um cientista. A imaterialidade, os véus da abstração, os domínios do metafísico não são do domínio do campo científico. Não se pode incorrer na ignorância de que a mesma ciência, com seus instrumentos, possa desvendar as proteínas, os hormônios, os meandros físicos, químicos, biológicos, e até mesmo os labirintos da mente e do convívio social, que tecem a trama do tão abstrato amor.
Desse trabalho, nascerão talvez remédios para as chagas do mundo, ou mesmo reflexões sobre o fim último da existência. Mas não confunda a máquina do corpo com o sopro da alma. O mapa marca o território, mas o terreno permanece indiferente às linhas imaginárias riscadas no papel. Não confunda a sombra com a substância. O amor possui sua materialidade, mas permanece um enigma — porque o que é eterno no homem escapa à lâmina do microscópio.
A arte, a religião, a tradição e tudo o que há de mais poético e onírico no ser humano estão em conflito com a ciência? A ciência e o metafísico não são como Caim e Abel, mas sim como dois rios que correm paralelos. Um tangível e rumoroso, outro silente e subterrâneo. Não se diga inimigos, pois a inimizade pressupõe conflito, e aqui não há guerra, mas sim um eterno desencontro de linguagens. São de espécies distintas, como o espelho e o abismo escuro que ele reflete. A ciência descreve o que cabe em seus léxicos; o abstrato habita onde as palavras se dobram em mistério.
Mas afirmar que não se tocam seria ignorar o homem, esse composto paradoxal, feito de toda matéria que há na terra e assombrado pelo seu fim. Nele, a matéria e o espírito entrelaçam-se como raízes de uma árvore antiga: qual delas sustenta qual? A ciência, ao dissecar nervos e sinapses, encontra vestígios do amor, mas não a poesia — como quem descreve a luz da lanterna, mas cala sobre a escuridão que a cerca. O homem é a charada viva: parte do que ele é escapa à dissecação, parte insiste em se deixar medir. Isto é, pois o homem é inerente ao universo. Quando ele olha para si, ele encontra um abismo.
No teatro da existência, ambos são atores da mesma peça. A ciência escreve os versos; o metafísico, as pausas. E o homem, plateia e palco, vive a comédia de ser ao mesmo tempo o que se explica e o que se oculta. Pois como separar, em nós, o sopro do pulmão, o pensamento do cérebro, o desejo do sangue? São divisões úteis, mas fictícias. No fim, resta a pergunta sem resposta: será o espírito flor da matéria, ou a matéria cinza do espírito? A ciência cala, o metafísico especula, e o homem ri — ou chora — de carregar em si o enigma que jamais conseguirá resolver e absorver. Pois o mistério também é parte do universo ao qual o homem sozinho é muito menor.
Na memória fica a lembrança do último por do sol. No coração fica a esperança de uma nova alvorada. Sutileza e força convivendo imbricadas em um amálgama de significados. O sol nos deu luz para vermos, mas também para vermos aquilo que não vemos. Não podemos ver o tempo. A passagem do tempo é concreta. Sentimos em nossa pele e nos joelhos que rangem.
E os segundos, minutos, horas, dias, meses e anos, quem os inventou, senão o homem? Esse ser que insiste em medir o imensurável, em aprisionar o sol e a lua na abstração.
Imaginamos círculos no céu para justificar o pulsar das veias. Sim, porque o coração bate sessenta vezes num minuto. São sessenta os segundos que escorrem como areia entre os dedos das mãos. Escorrem pelo indicador, pelo médio, pelo anelar e pelo mínimo. Cada um desses quatro dedos com suas três falanges. Em uma mão são doze ao todo. São doze como as horas que dividem o dia em claridade e sombra. São duas mãos e, portanto, doze mais doze, vinte e quatro.
Tal qual as falanges das duas mãos juntas, como se a carne e o osso quisessem sussurrar ao homem que o tempo não é senão um eco do corpo, uma invenção nascida da observação dos astros e das próprias vísceras, das marés do sangue e das estações que se dobram sobre a terra. Abstração seria uma expressão do aprisionamento da natureza externa ao homem para dentro de sua natureza particular.
Há algo sutil aqui. Essa é uma analise do nosso provável entendimento do tempo, e nada explica o que é tempo em si. O que é o tempo? Os relógios e calendários são expressão da nossa frágil condição de criaturas que contam histórias enquanto o universo, indiferente, prossegue seu curso sem relógios nem calendários. O universo não precisa de um relógio. Na verdade não precisa de nós.
O universo, essa entidade que não lê tratados de filosofia nem se curva a mapas, subverte a própria ideia de centro, rasga os diagramas, transborda os limites, fazendo do protagonismo humano apenas um capítulo breve na epopeia caótica das coisas que nascem, morrem e se transformam sem pedir licença.
Natureza é uma expressão curiosa. Ao pensarmos nela, automaticamente imaginamos um limite claro entre o humano e o não humano. A dividimos. Separamos o universo entre a natureza humana e a natureza do resto.
Traçamos fronteiras entre a natureza — aquela dos documentários onde os leões rugem, as águas voam e aparecem cascatas cinematográficas — e a humanidade. Nos julgamos donos de nós mesmos, a humanidade como mestra de si. Incorremos no engano. Embora os arranha-céus dos centros urbanos, o solo negro do asfalto e os carros que zunem pelas ruas nos afaste dos perigos imediados da natureza (daquilo que dizemos como não humano), não quer dizer que nos apartamos dela.
A existência da humanidade carece de condições ideais. O conforto que conquistamos, através da transformação da natureza pelo trabalho, não desatou os nós invisíveis que nos ligam às raízes do mundo.
A vida pode ser eterna? Sim, talvez. Da mesma fonte que emana a abstração do tempo a partir da análise concreta da passagem do sol também surge a possibilidade. Surge a capacidade trazer a abstração para a concreticidade: esse é o por teleológico. Esse é o dom unicamente humano de trazer a abstração para o concreto. Inaugura-se algo mais do que um campo de conhecimento humano. Manifesta-se aqui a arte.
Pela arte — manifestação que os homens tecem como teias de aranha contra o vento do tempo — fazemos um sopro teimoso contra a muralha do esquecimento. Talvez, apenas talvez, nossa única ponte frágil para atravessar o abismo do efêmero sem jamais decifrá-lo. Essa é uma chance, repito, não uma promessa.
A arte não é mapa nem bússola, é um espelho quebrado onde se refletem instantes fugidios, paradoxo de querer imortalizar o que dura menos que um piscar de olhos. Ainda assim, ali, nas telas, nas palavras, nas notas suspensas no ar, reside o que há de mais humano: a tentativa desesperada de dizer aqui estive, isto senti, isto vi. Mesmo sabendo que o tempo, esse rio sem margens, seguirá correndo indiferente. Arrastando consigo até as pedras mais pesadas, até os monumentos mais altos, até as certezas mais sólidas. O universo não pestaneja em sacrificar suas maiores ou mais belas estrelas, que um dia encontrarão o seu fim. Enquanto o ser humano, essa criança teimosa, pela arte continua riscando traços na areia, sabendo que a maré virá, mas riscando mesmo assim. Quem ousa afirmar que não é nesse gesto, e não no mar, que reside o verdadeiro mistério do propósito da vida?
Daí temos uma pista. Tal resposta não virá da ciência. Não há cientista honesto que afirme haver uma resposta para o propósito da vida. A ciência nos fornece um método útil e construção objetiva do conhecimento. No entendimento do meio para a produção, reprodução e projeção do gênero humano. Na descoberta de respostas para problemas difíceis da nossa materialidade.
Essa eficácia singular e soberania inconteste da ciência não se devem, por mais engenhoso que seja o espírito humano se misturar à compreensão do que nos transcende. Não é isso que faz a ciência ou é o trabalho de um cientista. A imaterialidade, os véus da abstração, os domínios do metafísico não são do domínio do campo científico. Não se pode incorrer na ignorância de que a mesma ciência, com seus instrumentos, possa desvendar as proteínas, os hormônios, os meandros físicos, químicos, biológicos, e até mesmo os labirintos da mente e do convívio social, que tecem a trama do tão abstrato amor.
Desse trabalho, nascerão talvez remédios para as chagas do mundo, ou mesmo reflexões sobre o fim último da existência. Mas não confunda a máquina do corpo com o sopro da alma. O mapa marca o território, mas o terreno permanece indiferente às linhas imaginárias riscadas no papel. Não confunda a sombra com a substância. O amor possui sua materialidade, mas permanece um enigma — porque o que é eterno no homem escapa à lâmina do microscópio.
A arte, a religião, a tradição e tudo o que há de mais poético e onírico no ser humano estão em conflito com a ciência? A ciência e o metafísico não são como Caim e Abel, mas sim como dois rios que correm paralelos. Um tangível e rumoroso, outro silente e subterrâneo. Não se diga inimigos, pois a inimizade pressupõe conflito, e aqui não há guerra, mas sim um eterno desencontro de linguagens. São de espécies distintas, como o espelho e o abismo escuro que ele reflete. A ciência descreve o que cabe em seus léxicos; o abstrato habita onde as palavras se dobram em mistério.
Mas afirmar que não se tocam seria ignorar o homem, esse composto paradoxal, feito de toda matéria que há na terra e assombrado pelo seu fim. Nele, a matéria e o espírito entrelaçam-se como raízes de uma árvore antiga: qual delas sustenta qual? A ciência, ao dissecar nervos e sinapses, encontra vestígios do amor, mas não a poesia — como quem descreve a luz da lanterna, mas cala sobre a escuridão que a cerca. O homem é a charada viva: parte do que ele é escapa à dissecação, parte insiste em se deixar medir. Isto é, pois o homem é inerente ao universo. Quando ele olha para si, ele encontra um abismo.
No teatro da existência, ambos são atores da mesma peça. A ciência escreve os versos; o metafísico, as pausas. E o homem, plateia e palco, vive a comédia de ser ao mesmo tempo o que se explica e o que se oculta. Pois como separar, em nós, o sopro do pulmão, o pensamento do cérebro, o desejo do sangue? São divisões úteis, mas fictícias. No fim, resta a pergunta sem resposta: será o espírito flor da matéria, ou a matéria cinza do espírito? A ciência cala, o metafísico especula, e o homem ri — ou chora — de carregar em si o enigma que jamais conseguirá resolver e absorver. Pois o mistério também é parte do universo ao qual o homem sozinho é muito menor.