03 março, 2025

O DESPERTAR DO OCULTO: MANIFESTO REDUNDANTE DO ESPÍRITO ERRANTE


 


A vida é amiga da arte. É a parte que o Sol me ensinou. O Sol que atravessa essa estrada que nunca passou. Disse o poeta. Mas que sol? Que estrada? Passou para onde? O astro que bilha nos céus nos irradia com sua luz. Com sua luz ele não só traz vitalidade. Desde os primeiros homens, o sol nasce e se põe.

Na memória fica a lembrança do último por do sol. No coração fica a esperança de uma nova alvorada. Sutileza e força convivendo imbricadas em um amálgama de significados. O sol nos deu luz para vermos, mas também para vermos aquilo que não vemos. Não podemos ver o tempo. A passagem do tempo é concreta. Sentimos em nossa pele e nos joelhos que rangem.

E os segundos, minutos, horas, dias, meses e anos, quem os inventou, senão o homem? Esse ser que insiste em medir o imensurável, em aprisionar o sol e a lua na abstração.

Imaginamos círculos no céu para justificar o pulsar das veias. Sim, porque o coração bate sessenta vezes num minuto. São sessenta os segundos que escorrem como areia entre os dedos das mãos. Escorrem pelo indicador, pelo médio, pelo anelar e pelo mínimo. Cada um desses quatro dedos com suas três falanges. Em uma mão são doze ao todo. São doze como as horas que dividem o dia em claridade e sombra. São duas mãos e, portanto, doze mais doze, vinte e quatro.

Tal qual as falanges das duas mãos juntas, como se a carne e o osso quisessem sussurrar ao homem que o tempo não é senão um eco do corpo, uma invenção nascida da observação dos astros e das próprias vísceras, das marés do sangue e das estações que se dobram sobre a terra. Abstração seria uma expressão do aprisionamento da natureza externa ao homem para dentro de sua natureza particular.

Há algo sutil aqui. Essa é uma analise do nosso provável entendimento do tempo, e nada explica o que é tempo em si. O que é o tempo? Os relógios e calendários são expressão da nossa frágil condição de criaturas que contam histórias enquanto o universo, indiferente, prossegue seu curso sem relógios nem calendários. O universo não precisa de um relógio. Na verdade não precisa de nós.

O universo, essa entidade que não lê tratados de filosofia nem se curva a mapas, subverte a própria ideia de centro, rasga os diagramas, transborda os limites, fazendo do protagonismo humano apenas um capítulo breve na epopeia caótica das coisas que nascem, morrem e se transformam sem pedir licença.

Natureza é uma expressão curiosa. Ao pensarmos nela, automaticamente imaginamos um limite claro entre o humano e o não humano. A dividimos. Separamos o universo entre a natureza humana e a natureza do resto.

Traçamos fronteiras entre a natureza — aquela dos documentários onde os leões rugem, as águas voam e aparecem cascatas cinematográficas — e a humanidade. Nos julgamos donos de nós mesmos, a humanidade como mestra de si. Incorremos no engano. Embora os arranha-céus dos centros urbanos, o solo negro do asfalto e os carros que zunem pelas ruas nos afaste dos perigos imediados da natureza (daquilo que dizemos como não humano), não quer dizer que nos apartamos dela.

A existência da humanidade carece de condições ideais. O conforto que conquistamos, através da transformação da natureza pelo trabalho, não desatou os nós invisíveis que nos ligam às raízes do mundo.

A vida pode ser eterna? Sim, talvez. Da mesma fonte que emana a abstração do tempo a partir da análise concreta da passagem do sol também surge a possibilidade. Surge a capacidade trazer a abstração para a concreticidade: esse é o por teleológico. Esse é o dom unicamente humano de trazer a abstração para o concreto. Inaugura-se algo mais do que um campo de conhecimento humano. Manifesta-se aqui a arte.

Pela arte — manifestação que os homens tecem como teias de aranha contra o vento do tempo — fazemos um sopro teimoso contra a muralha do esquecimento. Talvez, apenas talvez, nossa única ponte frágil para atravessar o abismo do efêmero sem jamais decifrá-lo. Essa é uma chance, repito, não uma promessa.

A arte não é mapa nem bússola, é um espelho quebrado onde se refletem instantes fugidios, paradoxo de querer imortalizar o que dura menos que um piscar de olhos. Ainda assim, ali, nas telas, nas palavras, nas notas suspensas no ar, reside o que há de mais humano: a tentativa desesperada de dizer aqui estive, isto senti, isto vi. Mesmo sabendo que o tempo, esse rio sem margens, seguirá correndo indiferente. Arrastando consigo até as pedras mais pesadas, até os monumentos mais altos, até as certezas mais sólidas. O universo não pestaneja em sacrificar suas maiores ou mais belas estrelas, que um dia encontrarão o seu fim. Enquanto o ser humano, essa criança teimosa, pela arte continua riscando traços na areia, sabendo que a maré virá, mas riscando mesmo assim. Quem ousa afirmar que não é nesse gesto, e não no mar, que reside o verdadeiro mistério do propósito da vida?

Daí temos uma pista. Tal resposta não virá da ciência. Não há cientista honesto que afirme haver uma resposta para o propósito da vida. A ciência nos fornece um método útil e construção objetiva do conhecimento. No entendimento do meio para a produção, reprodução e projeção do gênero humano. Na descoberta de respostas para problemas difíceis da nossa materialidade.

Essa eficácia singular e soberania inconteste da ciência não se devem, por mais engenhoso que seja o espírito humano se misturar à compreensão do que nos transcende. Não é isso que faz a ciência ou é o trabalho de um cientista. A imaterialidade, os véus da abstração, os domínios do metafísico não são do domínio do campo científico. Não se pode incorrer na ignorância de que a mesma ciência, com seus instrumentos, possa desvendar as proteínas, os hormônios, os meandros físicos, químicos, biológicos, e até mesmo os labirintos da mente e do convívio social, que tecem a trama do tão abstrato amor.

Desse trabalho, nascerão talvez remédios para as chagas do mundo, ou mesmo reflexões sobre o fim último da existência. Mas não confunda a máquina do corpo com o sopro da alma. O mapa marca o território, mas o terreno permanece indiferente às linhas imaginárias riscadas no papel. Não confunda a sombra com a substância. O amor possui sua materialidade, mas permanece um enigma — porque o que é eterno no homem escapa à lâmina do microscópio.

A arte, a religião, a tradição e tudo o que há de mais poético e onírico no ser humano estão em conflito com a ciência? A ciência e o metafísico não são como Caim e Abel, mas sim como dois rios que correm paralelos. Um tangível e rumoroso, outro silente e subterrâneo. Não se diga inimigos, pois a inimizade pressupõe conflito, e aqui não há guerra, mas sim um eterno desencontro de linguagens. São de espécies distintas, como o espelho e o abismo escuro que ele reflete. A ciência descreve o que cabe em seus léxicos; o abstrato habita onde as palavras se dobram em mistério.

Mas afirmar que não se tocam seria ignorar o homem, esse composto paradoxal, feito de toda matéria que há na terra e assombrado pelo seu fim. Nele, a matéria e o espírito entrelaçam-se como raízes de uma árvore antiga: qual delas sustenta qual? A ciência, ao dissecar nervos e sinapses, encontra vestígios do amor, mas não a poesia — como quem descreve a luz da lanterna, mas cala sobre a escuridão que a cerca. O homem é a charada viva: parte do que ele é escapa à dissecação, parte insiste em se deixar medir. Isto é, pois o homem é inerente ao universo. Quando ele olha para si, ele encontra um abismo.

No teatro da existência, ambos são atores da mesma peça. A ciência escreve os versos; o metafísico, as pausas. E o homem, plateia e palco, vive a comédia de ser ao mesmo tempo o que se explica e o que se oculta. Pois como separar, em nós, o sopro do pulmão, o pensamento do cérebro, o desejo do sangue? São divisões úteis, mas fictícias. No fim, resta a pergunta sem resposta: será o espírito flor da matéria, ou a matéria cinza do espírito? A ciência cala, o metafísico especula, e o homem ri — ou chora — de carregar em si o enigma que jamais conseguirá resolver e absorver. Pois o mistério também é parte do universo ao qual o homem sozinho é muito menor.

15 fevereiro, 2015

DESAPEGAR PARA AMAR


Desapego é algo essencial para a vida, mas não devemos confundir o desapego com o descaso. Amar, em todas as suas várias formas, é um querer involuntário da felicidade e bem estar do outro. É querer de que o outro sempre fique bem. Paixão é uma síntese do encanto, de origem metafísica, ela é percepção à flor da pele.

O desapego não é estar longe, muito menos demonstra frieza. É algo natural do amor genuíno, que apesar de ser diferentemente do amor romântico também é quente, vivo e intenso, mas nunca fez ninguém sofrer. O amor romântico se confunde as vezes com a paixão, sentimento causado pela percepção do abstrato. Percepções abstratas que são as mais variadas formas de amor, livre das coisas materiais e físicas. Paixão é um encanto que perpassa por uma percepção transcendente, que sai da alma para o corpo. Essa percepção transcendente é diferente das percepções dos ouvidos, olhos, nariz, língua e pele. Não é provocada por frequências de som, luz, moléculas olfativas e degustativas ou textura. É provocada pela alma.

Ao contrário dos sentidos como o paladar, olfato, tato, audição e visão, que são percepções do meio material e físico para a alma, a paixão percorre o caminho reverso da percepção física. A paixão é um sentimento da alma para o corpo. Do imaterial, para o material; do espiritual para o físico; do abstrato para o concreto. Toda essa sensação é provocada por um impulso que acontece quando o amor surge na alma, que transborda todo tipo de sensação para o corpo.

O amor romântico é diferente da paixão e do amor genuíno, ele não existe sem o toque, sem o cheiro, sem ver, ouvir ou degustar. Tanto é que se não houver presença, dará a sensação de que não há amor. Tem que haver um envolvimento obrigatório com aquilo que é físico e material. Isso porque o amor romântico é um anseio, um amor por aquilo que está na frente, que se projeta, aquilo que se espera. E pelo fato de ser um anseio é impossível dissociá-lo do apego por estar ligado a um querer que vem do íntimo. Quando um anseio de algo que seria bom não acontece, não se concretiza, o apego causa frustração, sofrimento e tristeza.

O amor genuíno é como fazer fogo com gravetos e palha, exige sutileza e leveza na hora de assoprar a faísca para nutrir, deixando as coisas fluírem, dessa forma surge o fogo. Soprar com força no anseio do fogo é como não soprar, apaga a faísca. Portanto não é a força. Quanto mais força nos agarramos ao outro outro mais sofremos, e ainda mais, o amor genuíno se afasta. Isso é muito difícil de compreender. Ainda mais se acreditarmos que quanto mais agarrarmos à alguém, mais isso demonstrará que se importa com este alguém. Isso é apenas tentar prender algo, por um medo de que se não for assim, é que de fato acabará se machucando e se ferindo. Qualquer tipo de relacionamento no qual imaginamos que poderemos ser preenchidos pelo outro o agarrando, será um relacionamento complicado e repleto de ciúmes.

Por isso desapego faz parte de cuidar, pois não jogará culpa no outro de algo que ele na verdade não tem ou não é. Idealmente as pessoas deveriam se unir já se sentindo preenchidas por si mesmas, e ficarem juntas apenas para apreciar isso no outro, em vez de esperar que o outro supra essa sensação de bem estar que não se tem sozinho.




Ilustração: Raony Almeida Ribeiro

27 janeiro, 2015

ARTISTA UTILIZA FULIGEM DE VELAS E LAMPARINAS PARA CRIAR DESENHOS IMPRESSIONANTES



Steve Spazuk, durante os últimos 14 anos, aperfeiçoou uma técnica chamada fumage, que lhe permite usar a chama de uma vela, ou a chama de uma tocha, como um pincel permitindo que o artista crie suas pinturas com marcas da fuligem. Usando várias ferramentas, ele intuitivamente desenha plumas com fuligem dando vida às formas que aparecem na tela.




Espontaneidade e oportunidade são o coração e a alma de seu processo criativo. O artista pratica a criatividade juntamente com o fluido da fuligem, cria uma torrente de imagens, sombras e luzes. Abastecido pela busca de uma forma perfeita, que ainda não se materializou, ele se concentra em um ato meditativo e se rende à captura do momento nas telas.

Confira outros trabalhos de Steve que selecionei aqui para vocês conferirem, são deslumbrantes!








― Adaptação de spazuk.com feita por Raony A. Ribeiro

26 janeiro, 2015

ENTRE OS ARCOS DA CRIAÇÃO




Tem dia que a gente acorda com aquele espírito de quem vai criar um mundo. De vez em quando até que a gente cria. Hoje acordei meio assim, querendo escrever algo, não importa o quê! Passei boa parte da madrugada escrevendo, tentando capturar todos os meus devaneios. Não queria deixar nenhum devaneio escapar, eles sempre me pareceram tão geniais. Quem sabe alguém goste deles algum dia? Sabe se lá. Ninguém sabe.

É certo que fiquei a noite toda, entre a insônia e a luta para não dormir. Que paradoxo! Tentava escrever coisas melancólicas, mas quando queria deixar a tristeza sangrar sobre o papel, acabava por escrever um texto até interessantemente divertido. Droga! Tentei também escrever coisas alegres, mas sempre acabava por desviar o assunto e escrevia coisas totalmente diferentes. Quando tentava escrever coisas alegres, não demorava mais que um parágrafo, já estava ali, registrado no papel, um digno texto político defendendo qualquer coisa, desde que não representasse a direita deste país. Que coisa não? Acho que tenho um pequeno problema de foco. Preciso tratar isso, mas depois, antes quem sabe eu desenhe algo.

Volta e meia fico assim, paralisado querendo escrever uma ideia, que para muitos não pode ser tão grandiosa. Para mim, todas são importantíssimas. Detesto menosprezar minhas ideias. E tenho que parar com isso! As pessoas vão acabar pensando que sou esquizofrênico com um ego muito inflado. Só porque dou entrevistas sobre minha vida para as paredes, mas as ideias não podem parar. Podem ser que tenham razão! Quem? Não sei, Estou confuso hoje.

Mas algumas ideias não podem ser anotadas. São as ideias musicais. Tenho um hábito de compor com assobios desafinadíssimos ― e assim seriam registrados ― ótimas melodias. Não as anoto porque sou um analfabeto musical. Não sei escrever partituras, e nem lê-las. Uma perda musical. Todos deviam saber ler e escrever partituras, o mundo seria muito melhor se os olhos soubessem escutar e as mãos cantar.

Meio que é assim que penso, pulando de ideia em ideia. De texto para foto. De foto para desenho. De desenho para texto. De texto para música, que não sei escrever. Gosto de brincar por entre esses arcos. Um de vez em quando se sobressai a outro, nem sempre os faço tão bem. Quase sempre um fiasco. Mas quando se quer se divertir, para o pueril nada disso importa. Antes de terminar este parágrafo, queria dizer uma ultima coisa: era para ser um post que falasse de amor. Era!



Foto: Raony Almeida Ribeiro

31 outubro, 2014

Para Juiz de Fora e os fortes de coração.


Desde que cheguei em Juiz de Fora, tenho buscado um pingo de felicidade em tudo e todo o lugar por onde tenho passado. Juiz de Fora, para mim é uma cidade de martírio, dura demais com aqueles que vem em busca de um sonho: os seus estudantes.

Cidade aristotélica, em até o seu mais insignificante grão de poeira. Onde atos, de fato, vem acompanhados de prazeres e dores intensas. Aqui sofrimento e a alegria possuem uma relação muito promíscua, se abraçam e beijam, se amam. Um amor de tal forma, que me faz também acreditar no amor. Se sofrimento e alegria podem, por que eu não? Sem dúvida, uma cidade onde tenho me amadurecido de forma feroz e vivaz.

Já superei toda e qualquer baixa autoestima. A vida sozinho, sem ninguém é um reforço ao autoconhecimento. Quando você mora só, você aprende que você é seu melhor amigo. Quantas vezes eu já me peguei falando só, em um diálogo cômico, mas sincero? Várias vezes, senão todos os dias. Quantas vezes, com medo de morrer só, em toda a ridicularidade prática que pareça essa frase, me senti na obrigação de dar sempre notícias para minha mãe, para que no dia em que eu não ligasse, ela pudesse perceber que algo de errado aconteceu comigo?

A ilusão de uma cidade meritocrática, onde todo esforço não tem valor, mas o erro é enaltecido! Claro que isso não acontece apenas em Juiz de Fora, seria injusto dizer isso da Manchester Mineira. Juiz de Fora, a cidade onde as ruas do centro cheiram queijo frito, pipoca, batata e pururuca (chamadas de pelinha por aqui). A cidade dos doces mais saborosos de Minas Gerais. Um cenário belíssimo para melancolias de arrancar o sangue de qualquer coração nos dias chuvosos. Uma cidade que não é para os fracos de coração.

Coração, que aliás, tem sido duramente testado. Essa cidade ainda há de me infartar! Tenho me apaixonado, e tal estado acredito que é muito facilitado pela vida solitária. Relacionamentos curtos e intensos, onde meu coração parece de uma hora para outra bombear o sangue para o lado contrário. Me apaixono e amo de verdade, de forma sincera; ingênua. Embora pareça nunca vingar para um relacionamento sério e duradouro, sempre há um porém, que, ao invés de ser ter uma vírgula após essa conjunção sempre é colocado um ponto final. Posso dizer assim que a vida não entende nada de gramática, e por isso é dramática.

Carência e melancolia, pode ser que tais coisas tenham me tomado a alma. Isso não quer dizer que sou triste. ainda encontro forças para sorrir, dizer um bom dia, abraçar todas as pessoas que eu puder. Sou uma pessoa feliz por isso. Me sinto feliz quando vejo alguém feliz. Tenho buscado distribuir toda a felicidade que eu puder provocar, isso me traz felicidade. Um sorriso de manhã em toda manhã é o meu objetivo (gigantesco bônus se consigo isso em uma segunga-feira e no horário de verão).

Um desabafo a esta cidade e a algumas pessoas que vivem por aqui. Uma indireta? Não! Um convite a própria introspecção diria assim. Não quero vantagens e mimos, muito menos ser dono de qualquer verdade ou razão, pois não sou o mais sábio dentre os homens e tampouco aquele que possui toda a verdade. Chega de baboseira! Apenas quero mesmo desejar para todos um "BOM DIA! :-)".






Fotografia: Raony Almeida Ribeiro

10 janeiro, 2014

ESCADAS, JORNAL, ESTACIONAMENTO, BEATAS, FECHADURAS E SOL




Todos os dias, as 6h30 eu chego à igreja, sempre com muita pressa subindo as escadarias, nem tão longas, mas assim mesmo cansativas ao ponto de parecerem intermináveis para quem corre. De forma ágil pego o jornal, que pelo entregador foi jogado ali ao chão, bem em meio aos degraus. O sol iluminava aquela linda e antiga edificação, construída em 1924. Luz e sombra pintam todos os dias bem cedinho aquela linda fachada de forma esplendorosa. Qualquer fotógrafo ficaria extasiado em apenas ver aquelas cores e luzes, o alaranjado do sol no branco e um preto de sombras com traços retos.

As senhoras beatas já estavam impacientes, eu deveria chegar muito antes das 6h30. Abro os portões laterais do estacionamento, e passo por elas dando um bom dia amarelo como a luz refletida por aquela fachada. Já tentei chegar mais cedo, mas é impossível! Como negar a tentação do acalanto etéreo que somente minha cama, nas manhãs gélidas de inverno, saberia me propiciar? Não tem como. Abro a Igreja, o sol me dá um lindo bom dia, com raios que invadem a nave. Sempre quando abro as enormes e pesadas portas de madeira; as senhoras que aguardavam adentram a Igreja, algumas com a cara onde o ódio parecia cerrar nos olhos. Outras senhoras pareciam compreender meu atraso e entravam passando por mim com um belo sorriso. Ambas são amadas por mim, gosto de todas elas não importando se são recíprocas, as mal-humoradas são importantes dentro da construção do meu dia, mas as educadas possuem um lugar especial em meu coração.

Todos os dias meu dia começa desta maneira: subo as escadas, pego o jornal, abro os portões do estacionamento, passo em frente as beatas na escadaria e dou um bom dia amarelo, abro as fechaduras que ecoam pela Igreja, abro as portas de madeira por onde o sol ilumina toda a Igreja... escadas, jornal, estacionamento, beatas, fechaduras, portas de madeira e o sol...

Mas houve um dia extraordinário. Chega um dia um cão e um senhor, ambos vira-latas. Estes apenas entram por uns instantes logo após o meu ritual escadas-jornal-estacionamento-beatas-fechaduras-sol. O senhor segue pelos corredores com o seu fiel amigo, para em frente ao altar da Sagrada Família, que fica próximo a sacristia, e faz uma oração inaudível, mas onde dera para escutar um agradecimento sincero, ainda que em balbucios. O cão abanava o rabo de felicidade, mas o cão ao contrário de seu rabo, estava comportado, e ofegava um pouco com a língua do lado de fora. O seu mestre, assim que terminou a oração se virou em direção da saída, o cão parecia que compreendeu e saiu em frente e o aguardou na porta da Igreja. O homem, então pega um pão de uma sacola que carregava, parte um pequeno pedaço e divide com o seu amigo e subordinado cão. Os dois assim se vão sob a luz da alvorada descendo as escadas.

Ninguém talvez tenha visto a poesia que fora tal cena, e se viu tal cena. Mas em meio a tantas críticas, inclusive as minhas, sobre tal instituição, o essencial e o necessário de se ver sobre tudo isso não passa do simples carinho ou cuidado com o próximo, de repartir o pão e agradecer inclusive o pouco que tem.


Fotografia: Raony Almeida Ribeiro